A filosofia da permacultura
por Paula Montefusco*
Pôr aquecedor solar, usar lâmpadas mais econômicas, reciclar o lixo, fechar a torneira enquanto se escovam os dentes… Será que essas atitudes, cada vez mais disseminadas, fazem mesmo diferença para o meio ambiente? Alguns acham que não, e defendem que é preciso ir muito além desses primeiros passos ecológicos. É o ponto de vista, por exemplo, da permacultura
O termo foi cunhado pelo australiano Bill Mollison e vem da junção de permanent (permanente) e culture (cultura). Segundo essa perspectiva, tudo o que sobra pode ser reaproveitado, inclusive a energia. A sustentabilidade é vista como algo que vai muito além da ecologia – os projetos têm também de ser social e financeiramente sustentáveis. O princípio é pegar o que sobra de um lado e aplicar no outro, criando um fluxo de energia e matéria.
Trata-se, portanto, de uma filosofia que não enxerga apenas a casa. Uma área em que tem sido aproveitada é a agricultura, com a rotação de culturas para que o solo não perca os nutrientes e seja menos desgastado pela ação humana. “A permacultura é a cultura de como estabelecer sistemas permanentes de produção sem que o ambiente e os recursos naturais sejam degradados. Eu brinco que é a ciência do óbvio, porque é obvio que você tem de fazer isso: produzir alimentos sem veneno, usando a lógica da variedade e sem monocultura”, afirma Carlos Miller, fundador da Unidade Demonstrativa de Permacultura da Amazônia, em Manaus. “Assim, você preza pela segurança energética em que todas as partes do sistema são integradas e sustentáveis.”
A perspectiva está baseada em quatro elementos (alimento, água, segurança energética e infraestrutura) e quatro princípios éticos (cuidado com o planeta, cuidado com as pessoas, partilha de excedentes – inclusive de conhecimento– e limite ao consumo).
Em casa, pode ser aplicada no planejamento da construção, concebendo, por exemplo, como a casa deve ser desenhada para aproveitar o vento, o sol e a chuva – com janelas grandes e pé direito alto, por exemplo. Ou prevendo uma horta e um galinheiro para abastecer os moradores e para que as galinhas façam o controle de pragas sem devorar os vegetais de uso da família.
A Unidade Demonstrativa de Permacultura (UDP) da Amazônia, onde Miller trabalha, tem alguns exemplos do uso dessa filosofia. A sede, fundada há dez anos, é munida de uma cozinha cujos fogões funcionam com o gás metano liberado pelo chiqueiro. Vários aspectos são planejados para reduzir o desperdício, como captação de água da chuva e utilização da horta: “Para cada necessidade a permacultura desenvolve tecnologias”, resume Miller. E questiona: “A gente pensa em questões vitais para serem resolvidas, como o corte e queima da Amazônia. As pessoas fazem isso nas propriedades rurais da região, só que isso vai deixar a terra pobre. Será que precisa?”
A partir da fundação da UDP, apoiada pela Fundação Daniel Dazca e pela empresa de brinquedos Tectoy, foram criados sistemas de florestas produtivas para substituir as monoculturas de trigo e soja, responsáveis por parte do desmatamento na região amazônica. Segundo Miller, foi possível reproduzir sistemas produtivos baseando-se na observação e imitação das formas da floresta. Miller acredita que, com a permacultura, é possível aprender com a natureza: “O solo da Amazônia é pobre. Como a gente tem a maior floresta do mundo em um solo pobre? É porque a floresta produz sua própria matéria orgânica. Sendo assim, será que não dá para produzir naquele espaço de forma permanente?”
*Paula Montefusco, da PrimaPagina
Especial para o Terra





































